
Sócia do Country Club Valinhos, Renata Romão Capellini Saporitto foi diagnosticada com câncer de mama aos 35 anos, durante a segunda gravidez. Dez anos depois, ela compartilha sua história, fala sobre a importância do diagnóstico precoce e reforça a necessidade de manter os cuidados com a saúde.

Em 2016, aos 35 anos e grávida de 28 semanas de sua segunda filha, Antonella, Renata Romão Capellini Saporitto recebeu o diagnóstico de câncer de mama. A descoberta aconteceu após uma biópsia realizada em São Paulo. Dez anos depois, a sócia do Country Club Valinhos, que também tem o marido, Artur Saporitto, e as filhas Valentina e Antonella ligados ao clube, transformou sua experiência em um livro digital e continua compartilhando sua história para mostrar que o câncer de mama pode ser tratado e curado.
Nesta entrevista para o Outubro Rosa, Renata relembra o diagnóstico, a gravidez, as cirurgias, o tratamento e os aprendizados que levou para a vida.

Como você recebeu o diagnóstico e o que estava vivendo naquele momento?
Eu tive um diagnóstico de câncer de mama há 10 anos. Em 2016, eu tinha 35 anos e estava grávida da minha segunda filha. Estava com 28 semanas de gestação.
Estávamos em um processo de troca de estado, de Santa Catarina para São Paulo. Já tinha feito uma biópsia, mas não havia buscado o resultado porque estava naquele processo de mudança. Eu tinha certeza de que não daria nada.
Certo dia passei no Hospital Santa Catarina, peguei o resultado e fui para a consulta com meu obstetra e meu ginecologista. Estavam comigo meu marido, Artur, e minha filha mais velha, Valentina. E foi quando tive a confirmação que estava realmente com câncer de mama. Como a Valentina estava junto, minha reação foi muito contida. Pensei muito nela naquele momento.

Tinha acabado de receber o diagnóstico. Câncer de mama.”
Como foi o primeiro momento depois da confirmação?
Uma lágrima caiu dentro do consultório, mas eu segurei por causa da Valentina. Não queria assustá-la.
Eu fiquei muito triste porque tinha planejado um parto, uma amamentação, uma coisa totalmente diferente. Naquele momento, isso me doeu até mais do que o próprio diagnóstico, porque eu tinha a sensação de que aquilo era muito recente e que eu tinha descoberto no início.
Quando saí do consultório, falei para o meu marido: “Eu vou precisar ir lá no fundo do poço, cavar, cavar, cavar, me afundar para depois voltar”.
E ele me respondeu que eu tinha todo o tempo do mundo para fazer isso, mas que eu precisava ter em mente que as pessoas reagiriam de acordo com a forma como eu reagisse.
No dia seguinte, eu sebtia uma força para encarar o momento ruim, que eu não sei de onde veio.

E como foi enfrentar o tratamento durante a gravidez?
Depois do diagnóstico, procurei alguns médicos até encontrar o meu mastologista, que é meu médico até hoje e acabou se tornando um amigo.
Eu fiz a primeira cirurgia quando estava com aproximadamente 33 ou 34 semanas de gestação. Foi uma quadrantectomia. A cirurgia estava prevista para durar cerca de duas horas, justamente porque eu estava grávida e precisava estar em um hospital que tivesse maternidade, caso a Antonella nascesse.
Mas a cirurgia passou de duas horas e não foi possível conseguir margem livre. Então, aquela primeira cirurgia não resolveu como esperávamos.
A próxima etapa seria esperar a Antonella nascer para depois realizar a cirurgia definitiva.

Como foi o nascimento da Antonella e o período até a segunda cirurgia?
A Antonella nasceu de 37 semanas, bem, graças a Deus. Ela nasceu no dia 1º de junho.
Eu já saí da sala de parto enfaixada. Não pude amamentá-la e comecei a tomar medicamento para secar o leite, além de fazer compressas de gelo, porque precisava me preparar para a próxima cirurgia.
Minha mãe veio para me ajudar. Meu pai também veio para dar uma força com a Valentina, que tinha quatro anos e meio. Minha mãe permaneceu comigo durante a recuperação.
A cirurgia definitiva aconteceu pouco mais de um mês depois, no dia 13 de julho de 2016.
Como foi essa segunda cirurgia?
Foi uma mastectomia bilateral, com preservação de alguns tecidos, e a reconstrução foi feita no mesmo momento com próteses.
Na época, fiz um exame chamado MammaPrint. Era um exame caro e eu precisei entrar na Justiça para conseguir realizá-lo. O resultado mostrou que eu não precisava fazer quimioterapia.
Também não havia indicação de radioterapia porque houve a retirada total das mamas. Depois disso, fiquei aguardando o resultado da patologia. A patologia veio negativa. Eu já tinha próteses e, mais para frente, provavelmente teria que trocá-las. Então pensei: agora eu faria uma cirurgia grande com uma pessoa especializada e teria a cobertura do meu plano de saúde para as próteses. Tentei olhar para o lado bom da situação.

Depois da cirurgia, como foi o tratamento?
Passei dois anos tomando uma injeção chamada Zoladex, que induziu a menopausa durante esse período e por mais algum tempo depois.
Também fiz cinco anos de terapia hormonal com Nolvadex, o tamoxifeno, para diminuir as chances de uma recidiva. Meu câncer era hormônio-receptor positivo.
Hoje estou com 46 anos e começo a enxergar a menopausa e a perimenopausa, mas não posso fazer reposição hormonal. Acho importante falar sobre a menopausa e sobre as possibilidades para as mulheres, mas também é importante discutir o que fazer com tantas mulheres que não podem utilizar hormônios.
Você continuou fazendo acompanhamento depois do tratamento?
Sim. Eu sigo todos os cuidados. Tenho meu mastologista e minha oncologista, pessoas em quem confio muito.
Em 2021, troquei as próteses e fiz outra cirurgia para ampliar a retirada de tecido na região das axilas. Quando voltei a menstruar, comecei a sentir naquela região sintomas semelhantes aos que sentia nos seios durante a menstruação.
Também aproveitei para diminuir um pouco as próteses.
Eu continuo fazendo meu acompanhamento e os exames necessários.

Durante esse processo, você procurou muitas informações sobre a doença?
Eu acho que, às vezes, certa ignorância pode fazer bem na hora de um diagnóstico.
Hoje as pessoas correm para o Google e para as inteligências artificiais. Vão encontrar informações válidas, mas também muita coisa errada, assustadora e que pode deixar a pessoa triste ou deprimida. E talvez aquele não seja o momento.
Na época, eu tinha certeza de que era algo inicial porque tinha um exame de seis meses antes em que aquele nódulo não existia.
Além disso, eu estava grávida. Minha preocupação mudou de foco. Eu precisava cuidar para que a Antonella permanecesse bem até o parto. Depois que ela nasceu, eu tinha uma recém-nascida para cuidar, mesmo que, naquele primeiro momento, eu não pudesse fazer muita coisa.
Minha mãe ficava comigo, colocava a Antonella em um travesseiro no meu colo para que eu pudesse ficar um pouco com ela, porque eu não podia fazer força com os braços.
Acho que esse foco também me ajudou. Era como se eu pensasse: “Então vamos fazer o que precisa e bola para frente”.

O apoio da família foi importante?
Muito. Eu perdi uma avó para o câncer de mama, então sabia que seria muito difícil para minha mãe.
Quando recebi o diagnóstico, primeiro liguei para meu irmão e expliquei. Pedi que ele fosse até a casa dos meus pais para que eu pudesse contar para eles e para que ele estivesse lá caso precisasse ajudar.
Ao mesmo tempo, eu me sentia muito abençoada por ter descoberto no início e por estar em São Paulo, com possibilidades de tratamento. Também reconheço o privilégio de ter plano de saúde e de estar em uma cidade com acesso a diferentes possibilidades.
Depois de dez anos, qual foi o principal aprendizado dessa experiência?
Eu percebi ao longo do tratamento e dos anos que a forma como você conta sua história e como você reage influencia a maneira como as pessoas reagem também.
Pouquíssimas vezes as pessoas tiveram pena de mim. E não que sentir pena seja necessariamente um problema, mas você pode acabar entrando em um ciclo que não vai colaborar com o tratamento.
É claro que ninguém precisa dizer para uma pessoa que recebeu um diagnóstico que ela não pode sofrer, chorar ou ficar triste. Ela precisa ter essa autorização.
Eu tive momentos de tristeza, medo e choro. Mas não deixava que eles tomassem conta de todos os meus momentos. Eram momentos dentro da minha vida.

Que mensagem você deixa neste Outubro Rosa?
Durante esses dez anos, conversei com muita gente e contei minha história para pessoas que conhecia e também para pessoas que passei a conhecer.
Eu acredito que posso cumprir esse papel de mostrar que é possível, que o câncer de mama tem cura.
As pessoas às vezes dizem que “quem procura acha”. Eu penso justamente o contrário: se você não acha, você não começa a se curar.
Por isso, eu escolhi me cuidar, manter meus exames em dia e continuar fazendo tudo o que os meus médicos orientam.


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